Por: Wilson Lima
Data de Publicação: 26 de julho de 2005
Reggueiros mostram que o estilo jamaicano é antes de tudo, filosofia de vida
Já diria Luís Fernando Veríssimo: a paixão é capaz de levar homens e mulheres à cometer atos que até Deus duvidaria. E de certa forma, o autor gaúcho tem razão. A prova disso está na paixão do maranhense pelo reggae. Despidos de qualquer forma de preconceito, alguns reggueiros fazem do estilo musical uma filosofia de vida, que deve ser vivida em cada momento; a cada instante; da maneira mais intensa possível.
Exemplo disso é de Ernani Novaes, 48 anos, 30 dedicados ao reggae. Ele viveu a fase do preconceito e da repressão militar e social ao estilo, mas sem nunca deixar que isso o abalasse. Fã incondicional da cultura maranhense, ele afirma que acabou sendo contagiado pelo reggae pela sua semelhança rítmica ao sotaque da ilha, ou sotaque de matraca. "Percebi que ambos eram parecidos e comecei a freqüentar os clubes de reggae. A paixão não pode ser explicada de uma forma pragmática. Apenas me deixei contagiar pelo estilo", declarou Ernani, Jamaicamente vestido, com um manto cinza em detalhes verde e amarelos.
E a maior loucura? Ele revela. "Rapaz, houve um dia em que saí pelado de casa simplesmente para escutar um reggae inédito. Não tinha noção do que estava fazendo. Percebi que estava sem roupas somente quando um amigo me alertou. A música falou mais alto", brincou.
Ernani chama a atenção pelo manto cinza; outros não se contentam apenas em vestir um manto ou usar uma boina em alusão à Bolívia. Abdon da Conceição, mais conhecido Guerreiro Fumaça, resolveu ir além. Se não fosse os apetrechos e o amarelo berrante, a bicicleta de Abdon seria apenas um meio de transporte. Ela é um símbolo da sua paixão pelo reggae. Entre os enfeites, frases e os nomes dos principais ídolos, espaço para pequenos aparelhos de som e patrocínio das principais radiolas da cidade.
Detalhe: bicicletas à parte, Abdon tem 25 anos de reggae e quatro filhos, entre os quais Bill Clits e Jimmy Cliff. "Eles adoram reggae. E estou adorando o fato de que ambos estarem curtindo o estilo. O reggueiro deve ser antes de tudo, um cidadão que promova a cultura local e este é o meu papel", brada Guerreiro Fumaça, óculos com armação amarela, com detalhes em verde e preto e roupa com detalhes bolilvianos.
Mas a paixão não fica por conta somente dos mais antigos, vários jovens vem aderindo ao reggae. O resultado disso é um público cada vez maior nas casas especializadas como o "Bar do Nelson" e o "Bar do Porto", principais redutos dos "novos reggueiros". A estudante Kamilla dos Santos apesar dos 23 anos, possui um arsenal de 25 discos de reggae e já aceitou trabalhar gratuitamente para garantir a sua entrada em clubes de reggae da capital. "Houve um dia em que estava completamente sem dinheiro e resolvi pedir para trabalhar no Bar do Porto para depois curtir a noite. Deu certo e até hoje trabalho no local", ressaltou Kamilla.