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Vandalismo contra patrimônio público ainda é problema em São Luís

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Por: Jornal Pequeno
Data de Publicação: 7 de abril de 2008

“Reservado para pichadores gays”. É com esta frase que Iracema Matos Costa se defende da ação de pichadores. Moradora da casa 1, da quadra 9, no Anjo da Guarda, Iracema sofria com a ação de vândalos desde o primeiro dia que se mudou para o bairro. “Moro aqui há seis anos. Nos dois primeiros tive problemas sérios com isso. Quatros anos atrás, decidi resistir”.

A situação vivida por Iracema é normal no cotidiano das grandes cidades. O vandalismo se arrasta como um câncer e parece não ter fim. Na maioria das vezes promovida por jovens, a depredação de patrimônio público causa prejuízos financeiros enormes, gera poluição visual e contribui para a insegurança. Seja uma placa de trânsito riscada, uma lixeira quebrada, um telefone público danificado ou um ponto de ônibus destruído: o vandalismo possui dezenas de formas.

Números da selvageria

Apenas em março a Prefeitura Municipal de São Luís substituiu mais de 100 lixeiras espalhadas nas praias da cidade. De acordo com números da Secretaria de Obras e Serviços Públicos (Semosp), a prefeitura gasta anualmente milhares de reais para recuperar papeleiras e contêineres de lixo. Apenas nos últimos cinco anos, foram colocadas mais de cinco mil papeleiras em São Luís.

O ambulante José Rodrigues Pereira afirmou que a destruição de papeleiras na praça Deodoro é o início de um ciclo que possui resultados muito piores. “Quando um vândalo destrói uma papeleira, ele evita que, pelo menos naquele local, o povo tenha possibilidade de jogar o lixo num local adequado. A sujeira vai para o chão. Os garis, ao invés de terem que recolher o lixo das papeleiras, têm que limpar áreas maiores em mais tempo. A cidade perde dinheiro, fica feia e as pessoas sofrem. Esse é o resultado do vandalismo”, relatou.

Por mês em São Luís, segundo dados da Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (SMTT), são quebrados e pichados cerca de 70 abrigos. Entre as depredações mais freqüentes estão a destruição de luminárias, bancos e roubo de peças de acrílico.

Em tempos de chuva, as pessoas sentem ainda mais a destruição promovida pelos vândalos. “Às vezes você sai do serviço cansado e quer, no mínimo, poder sentar enquanto espera o ônibus. Não pode porque algum desocupado destruiu o banco da parada. Quando chove, é obrigado a usar guarda-chuva na própria parada para não se molhar. Tudo isso porque alguém, em um estado de ‘podridão mental’, danificou o teto”, protestou o comerciário Augusto Lindoso Soares.

Telefones públicos são alvos recorrentes da ação de vândalos. Seja com a destruição total ou apenas inserindo um cartão telefônico quebrado dentro do aparelho, o resultado é o mesmo: prejuízo para a população que precisa utilizar o serviço.

Entre janeiro e março de 2008, a Oi-Telemar calcula que mais de três mil orelhões foram danificados pela ação de vândalos, no Maranhão. Para o flanelinha Marco Aurélio Silva Dias, quem destrói orelhões não tem noção do que faz. “Olha, eu queria mesmo é que uma pessoa desse tipo, que gosta de quebrar orelhão, tivesse um problema à noite e precisasse telefonar em uma emergência. Quando chegasse lá, o orelhão estaria quebrado. Aí ele saberia as conseqüências do que faz”.

Augusto Lindoso acredita que os danos causados em orelhões são frutos de maldade inexplicada. “O que leva uma pessoa que usa um aparelho quebrar o cartão telefônico ao meio, entupir a entrada de cartões e inutilizar o telefone depois que usa? Sinceramente? Para mim isso não passa de maldade”.

Respostas

Para a psicóloga Cinthia de Cássia Melo Cavalcante, a motivação de um vândalo pode ser explicada de diversas formas. “Pessoas que não possuem expectativa de vida,  limitadas física e mentalmente, geralmente representam o maior subgrupo dentro do conjunto dos vândalos. Outros acreditam que a destruição do patrimônio público pode ser vista como uma forma de mostrar revolta. Em casos mais particulares, como os pichadores, é uma forma obtusa de auto-afirmação perante a sociedade”.

Foi justamente após observar essa “auto-afirmação” dos vândalos que Iracema Matos Costa criou sua estratégia de defesa. “Esse pessoal se conhece e é metido a machão. Pensei comigo: tenho que transformar o ato de pichar em uma coisa ridícula. Nada contra os homossexuais. É justamente o machismo dos pichadores que os impede de pichar meu muro. Aqui ele não ganha fama, vira chacota”, brincou.

A inscrição criada por Iracema ganha adeptos em toda a cidade. Na avenida Kennedy, na Cidade Operária, Bequimão e em outras casas do Anjo da Guarda já é comum se deparar com ela. Iracema afirmou que a idéia desperta a atenção de todos os que passam na sua rua. “Tem gente que bate até foto. Outros passam e ficam comentando. Existe em muito lugar agora, mas a dona da idéia sou eu”.

Para Cinthia de Cássia, o Poder Público deveria intensificar as punições. “Não podemos falar de medidas sócio-educativas, pois o número de pessoas de classe média alta que depreda o patrimônio público é enorme e a eficácia delas ainda é muito questionada. O que podemos observar, na maioria absoluta dos casos, é que a ação dos vândalos é potencializada por uma certeza de impunidade. É preciso uma política de tolerância zero com punições rígidas e públicas. No caso da inscrição de dona Iracema, o pichador sabe que, de certa forma, seu ato será punido. A chave do combate ao vandalismo é criar a idéia de inibição dentro do próprio vândalo. Fazê-lo saber que sua ação terá conseqüências, e que elas não serão, de maneira algum, agradáveis para ele”.

A legislação para combater os vândalos já existe. A Lei Federal 9605 de 12 de fevereiro de 1998 prevê pena de 3 meses a 1 ano e multas que variam de R$ 1 mil a R$ 50 mil. A lei também pode ser aplicada a lojistas que vendem spray e tinta par pichadores.

Marco Aurélio Silva riu quando soube da lei. “Bastava uns 10 serem condenados a pagar uns R$ 2 mil e isso se tornar público para que a situação começasse a mudar. Quer barbarizar? Então se prepara para ser barbarizado”.


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