São Luís - Maranhão,Jorge Luís Borges, escritor argentino
Nelson Brito continuará pulsando
Foi enterrado neste domingo no cemitério do Gavião, em São Luís, o corpo do artista popular Nelson Brito. Foi fundador do Laborarte, criador do Carnaval de Segunda no Laborarte, agitador do Cacuriá de Dona Teté, dileto amigo do mestre Felipe e também do mestre de capoeira Patinho e tantos outros mestres da arte. Foi ator participante do Te Gruda no meu fofão, um espetáculo de rua do carnaval que levantou a poeira das brincadeiras num período em que se encontravam numa encruzilhada de sentidos. Foi presidente da Fundação Municipal de Cultura da Prefeitura de São Luís durante o governador Jackson Lago e nos primeiros meses da administração de Tadeu Palácio. Foi um dos organizadores do Festival Internacional de Música, realizado em 2002, um evento que ficou na memória da cultura de São Luís. Foi amante da arte e dos artistas, sobretudo, da cultura popular, seu farol por toda a vida.
Conheci Nelson Brito em uma loja de discos de Seu Alfredo, um dos proprietários da rede de discos Sódiscos. A loja ficava na Rua Afonso Pensa, num corredor de um casarão onde a mal dava para um cliente ficar de frente para o Balcão. Era uma loja pequena, mas aconchegante principalmente pelo tratamento que o vendedor dava às pessoas que ali se dirigiam para adquirir discos ou informações sobre música. Era um tempo em que o freguês tinha liberdade de escolher a mercadoria confiante no palpite feliz do vendedor, distinto e com imenso prazer em dar dicas sobre lançamentos, coisas que não estavam à vista de todo por imposição da indústria cultural.
Ano depois era um foco empolgado e encontrei com Nelson no Laborarte me apresentando o que seria uma biblioteca onde estavam os textos montados pelo grupo e que serviam de material de estudo para os artistas que ali acorriam em busca do deleite cotidiano pela arte. Por esta época ela já tinha predileção pela cultura popular a qual sempre considerou como a maior referência de toda sua formação artística.
Mais adiante Nelson Brito me alcançou em um telefonema em um domingo. Estava em casa de minha mãe. Estava se iniciando a administração de Jackson Lago na prefeitura e Nelson havia sido convidado para presidir a Fundação Municipal de Cultura. Senti imenso orgulho em integrar sua equipe. Logo de saída ele saudou a todos com o seminário Chegança, na qual destrinchou para os companheiros o que pretendia fazer à frente da FUNC. Com Nelson era pão pão queijo queijo, jamais tergiversar na promoção de política do engodo. Democrático, gostava de discutir pontos de vistas, colocando sempre o antagonismo como mola propulsora do debate.
Enquanto promovida o trabalho rotineiro Nelson imaginava um salto de qualidade em termos de aglutinação da arte. Foi assim que surgiu o Festival Internacional de Música em São Luís, inigualável evento cultural ocorrido na cidade.
Certa vez Nelson me chamou para juntos participarmos de um almoço com Arthur Moreira Lima para discutirmos sobre o festival no Restaurante do Sesc. Saímos dali cientes de que o renomado pianista afeito ao clássico por excelência tinha sentido o profundo significado da cultura popular tinha no cenário da cidade.
Veio então o festival, o cúmulo da excelência em termos de organização e qualidade das atrações contratadas. Ouviu-se e viu do som produzido pelos índios aos clássicos da Bulgária, passando pelos sons da África, do soul negro norte- americano, mas, sobretudo para ele, de apresentações memoráveis do Mestre Salustiano, de Selma do Itamaracá, curiosidades prazerosas e preferidas de Nelson.
Lembro de um comentário que o imortal Américo Azevedo fez de viva voz na redação do Jornal Folha do Maranhão sobre o evento. Que coisa boa, opinou o imortal sucedendo sua crônica no mesmo sentido. Mais um detalhe Américo citou: durante todo esse evento nunca encontrei uma vez Nelson Brito esbaforido ou chateado com algum furo natural.
Essa era a característica principal de Nelson Brito. Em vida foi uma pessoa afetuosa com o fazer artístico. Para ele a cultura estava ligada estreitamente com o prazer da vida. Era do bem por excelência por pensar que artista serve mesmo é para tornar o mundo mais belo. Essa missão ele cumpriu e continuará cumprindo todas as segundas de carnaval. E não será esse domingo de despedida que vai nos tirar Nelson Brito. Será ele sempre uma presença onipresente onde houver arte feita para o bem da vida.
